O momento histórico: O que representa esta visita inédita ao país alpino

Pela primeira vez na história, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima está a percorrer o território suíço. A visita, que teve início no dia 3 de maio e se estende até 30 de maio de 2026, está a mobilizar milhares de fiéis, especialmente os portugueses residentes no país, que veem na Mãe de Deus um símbolo de união, fé e identidade cultural .

A iniciativa partiu da Missão Católica de Língua Portuguesa no Cantão de Zurique, que decidiu comemorar os seus 50 anos de existência com este gesto de profundo significado espiritual. Segundo o assistente pastoral Miguel Serra, a visita da imagem está a “superar todas as expectativas” .

A agenda da imagem inclui cidades como Zurique, Uster, Einsiedeln, e percorre também a região do Valais, onde no dia 1º de maio, mais de uma centena de motociclistas acompanharam a imagem numa impressionante caravana de fé . O ponto alto será no próximo domingo, dia 24 de maio, com a Peregrinação Nacional no Mosteiro de Einsiedeln, presidida pelo Cardeal D. António Marto, Bispo Emérito de Leiria-Fátima .

A mensagem de Fátima para os migrantes: “Era estrangeiro e acolhestes-me”

Para a tradição católica, esta visita da imagem peregrina à Suíça tem uma densidade teológica que vai além da devoção popular. O Santuário de Fátima sempre dedicou especial atenção aos migrantes. A Peregrinação de agosto, por exemplo, é tradicionalmente dedicada à Peregrinação Nacional dos Migrantes e Refugiados, reunindo na Cova da Iira a diáspora portuguesa espalhada pelo mundo .

O Evangelho é claro no mandamento do acolhimento. O próprio Cristo Se identifica com aquele que cruza fronteiras: “era estrangeiro e acolhestes-me” (Mateus 25,35). O Catecismo da Igreja Católica (n. 2241) ensina que “as nações mais prósperas são obrigadas a acolher, na medida das suas possibilidades, o estrangeiro que procura segurança e os meios de vida que não pode encontrar no seu país de origem”.

A Suíça, país que acolhe a terceira maior comunidade portuguesa do mundo, vê na Virgem de Fátima um elo de ligação entre a pátria de origem e a pátria de adoção. O Cardeal D. Marc Ouellet, ao presidir a uma peregrinação em Fátima, invocou a memória dos migrantes que morrem nas travessias e afirmou: “Caros amigos migrantes e refugiados, possais vós encontrar o testemunho da caridade” .

O testemunho da fé na Suíça: A comunidade portuguesa no centro do evento

O entusiasmo dos fiéis suíços e, sobretudo, dos portugueses residentes, tem sido notável. As igrejas têm recebido centenas de pessoas. “A receção está a superar as expectativas”, afirmou Miguel Serra. “Há muitas pessoas portuguesas que não são de prática de missa dominical, mas nas procissões das velas vão sempre. Fátima acaba por ser um ponto de encontro e de convergência entre todos nós” .

Uma das imagens mais marcantes foi a procissão de motas no cantão do Valais. Centenas de motociclistas, muitos deles vestidos com casacos e coletes com a imagem da Virgem, escoltaram a imagem pelas estradas alpinas até à igreja de Bagnes. Foi a união do espírito moderno com a tradição mariana: uma prova de que a fé se adapta às linguagens do tempo sem perder a sua essência .

Para o fiel que vive na Suíça ou tem familiares emigrados, esta visita é a certeza de que Maria não esquece os seus filhos, por mais distantes que estejam da sua terra natal.

Por que isso importa para o católico?

Caro leitor do Sentinela Católico, este evento na Suíça não é uma notícia distante ou exótica. Ele nos confronta com três lições fundamentais sobre a fé e a vida da Igreja.

1. Maria é a Mãe da Peregrinação Humana: A vida de todo cristão é um “êxodo”, uma caminhada rumo à Jerusalém Celeste. Os emigrantes portugueses na Suíça são um símbolo vivo dessa condição humana. Ao visitá-los, Nossa Senhora de Fátima nos lembra que não estamos sozinhos. Ela é a “Stella Maris” (Estrela do Mar) que guia os navegantes e os caminhantes nas encruzilhadas da vida.

2. A importância das tradições na preservação da fé: Nas palavras do assistente pastoral, a devoção a Fátima funciona como um “ponto de encontro” mesmo para aqueles que se afastaram da prática dominical . A imagem da Virgem resgata a memória da fé infantil, das promessas feitas pelos avós, da identidade cultural que se recusa a morrer. Quando as estruturas eclesiais falham, a piedade popular (o terço, as procissões, as romarias) mantém a chama acesa.

3. O desafio do acolhimento como virtude cristã: A presença da imagem da Virgem na Suíça também deve nos mover à oração pelos migrantes que chegam ao Brasil (venezuelanos, haitianos, sírios) ou à Europa. A Igreja nos pede para superar a xenofobia e o medo. Não podemos pedir a Deus que nos acolha no Céu se recusamos estender a mão ao irmão estrangeiro aqui na Terra. O Cardeal D. António Marto, ao presidir à peregrinação, certamente lembrará a todos essa verdade .

Conclusão e convite à reflexão

Caro leitor, que Nossa Senhora de Fátima, que agora visita a Suíça, interceda por todos os emigrantes e refugiados. E que Ela nos ensine a sermos, como Ela, “peregrinos da esperança” neste mundo atribulado.

A pergunta que lhe faço é: você já acolheu um migrante hoje? Já rezou por aqueles que deixaram tudo para trás em busca de um futuro digno?

A resposta de Maria está nos gestos da Igreja na Suíça: acolher, rezar, recordar. Que o exemplo dos romeiros suíços nos inspire a sair de nós mesmos e a ir ao encontro do irmão.

Sentinela Católico – Vigiai e orai, porque a fé não tem fronteiras, e o amor de Maria atravessa montanhas, mares e países para nos encontrar onde estivermos.


Nota do editor: A imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima permanecerá na Suíça até 30 de maio. A peregrinação nacional está marcada para o Mosteiro de Einsiedeln no próximo domingo, 24 de maio. Quem estiver no país, não perca esta oportunidade única de venerar a Mãe de Deus. Nossa Senhora de Fátima, rogai por nós.

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