
Um grupo informal de bispos brasileiros, autointitulado “Bispos do Diálogo pelo Reino”, divulgou uma carta aberta intitulada Não deixemos cair a Profecia, na qual manifesta posições políticas frente às próximas eleições, tece severas críticas ao “conservadorismo autoritário” e exorta os fiéis a votar em candidatos alinhados às chamadas “causas populares”. O documento, antecipado pelo jornal Folha de S.Paulo e replicado em canais regionais da Igreja, foi assinado de forma coletiva e sem a divulgação nominal de seus integrantes. De acordo com informações da agência ACI Digital, o bispo de Santa Cruz do Sul (RS), Dom Itacir Brassiani, confirmou que o grupo reúne cerca de 50 prelados em caráter privado e reconheceu expressamente que o manifesto não possui caráter de pronunciamento oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A publicação do manifesto provocou reações no meio eclesial devido ao tom abertamente político adotado no texto. Ao mesmo tempo em que afirmam não possuir vinculação partidária, os signatários do grupo direcionam suas orientações de voto contra posturas qualificadas por eles como “fascistas” e em oposição a projetos econômicos liberais, repetindo dinâmicas de engajamento pré-eleitoral já adotadas pelo mesmo grupo em pleitos anteriores. A opção do grupo em manter o anonimato dos bispos subscritores foi justificada por Dom Itacir como uma medida para evitar desgastes e críticas nas redes sociais, além de manter o foco no debate sobre o papel social da Igreja.
Durante entrevista concedida à ACI Digital, Dom Itacir Brassiani argumentou que a missão evangelizadora da Igreja possui uma dimensão sociotransformadora e que a própria linguagem sobre o “Reino de Deus” guarda conotações políticas na história bíblica. O prelado destacou que, embora o anúncio do Evangelho perpétue a esperança na vida eterna, a prática de Jesus esteve profundamente voltada para o resgate da dignidade humana no tempo presente. Contudo, a intervenção direta de membros do clero no cenário político por meio de cartas anônimas recoloca em pauta os limites da atuação pública dos pastores da Igreja, que devem orientar as consciências dos fiéis segundo os princípios universais da fé, sem transformar o ministério sacerdotal em plataforma ideológica ou partidária.
A missão transcendente da Igreja, o papel do clero e a soberania da consciência dos leigos nas escolhas políticas
A iniciativa do grupo informal de bispos de emitir diretrizes eleitorais com vocabulário de cunho ideológico oferece uma oportunidade valiosa para recordar os ensinamentos perenes do Magistério da Igreja Católica sobre a política e a missão do clero. A Igreja Católica, por sua própria natureza fundada por Cristo, não está vinculada a nenhum sistema político, ideologia temporal ou partido. A sua autoridade moral e a sua missão salvífica derivam do Evangelho, o qual transcende as polarizações humanas e não pode ser reduzido a agendas sociopolíticas de ocasião.
A Doutrina Social da Igreja e o Código de Direito Canônico estabelecem uma clara divisão de papéis na construção da sociedade justa. Cabe aos bispos e sacerdotes ensinar a doutrina fé, administrar os sacramentos, denunciar as injustiças à luz da Lei Natural e formar a consciência moral dos fiéis. No entanto, o Magistério proíbe estritamente que os ministros sagrados assumam posições de militância partidária ou utilizem a sua autoridade eclesial para induzir os fiéis a escolhas eleitorais específicas. A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, do Papa São Paulo VI, recorda categoricamente que a evangelização visa primordialmente a reconciliação do homem com Deus e a salvação das almas, e não a implementação de modelos de engenharia social.
A transformação das estruturas temporais, a atuação partidária e a escolha dos melhores candidatos e projetos econômicos são de responsabilidade própria, direta e inalienável dos fiéis leigos. São os leigos, devidamente instruídos pela moral católica e pela busca do bem comum, que possuem a vocação e a liberdade de atuar na praça pública. Quando membros da hierarquia eclesial tentam tutelar o voto do leigo sob rótulos políticos ou criar documentos anônimos para influenciar eleições, corre-se o grave risco de clericalizar a política, instrumentalizar a fé e provocar divisões no rebanho de Cristo.
Para exercer uma cidadania verdadeiramente cristã, o fiel católico deve guiar sua escolha eleitoral por princípios inegociáveis do ensino da Igreja: a defesa irrestrita da vida humana desde a concepção até a morte natural, a preservação do matrimônio e da família tradicional, a garantia da liberdade religiosa, a promoção da justiça social e o combate à pobreza. Nenhum candidato ou grupo político que promova o aborto, a ideologia de gênero ou a perseguição à fé pode ser considerado compatível com a visão cristã do homem. Que os pastores da Igreja permaneçam firmes no anúncio da Verdade revelada, e que os leigos assumam com coragem e discernimento o seu dever de santificar a ordem temporal.
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